Lembrar Geraldo Gomes: achando é pouco

por Sônia Marques

   Em artigo publicado no Drops (1), Geraldo Gomes da Silva foi devidamente lembrado como arquiteto, professor, pesquisador, gestor, e ainda por suas marcantes realizações no campo do restauro do Patrimônio Histórico. Um maior detalhamento do seu percurso profissional pode ser obtido no currículo Lattes, que o autor certificou pela última vez em 23 de abril de 2009.

   Complementando, peço permissão para aprofundar alguns aspectos ali evocados, além de destacar outros do quase amigo, quase vizinho com quem estive, lado a lado, partilhando vivências, durante anos, em pelo menos três fóruns. Hesito em usar o termo fórum, mas falta-me melhor para dar conta das múltiplas situações, contextos, arenas, palcos sucessivos que dividimos e que foram extremamente interligados. São eles:

  1. o sítio histórico de Olinda, suas transformações do Eu acho é pouco até a patrimonialização;

  2. a UFPE e o ensino da história da arquitetura;

  3. os partidos políticos e associações, como o IAB e nossa militância

   Tudo começou em 1975, quando fui trabalhar no setor de Habitação do Condepe, o Conselho de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco. À época, o Condepe e a Fidem - Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife funcionavam no mesmo recinto. A Fidem, fundada em 1973, uma instituição então mais recente e mais prestigiada, elaborara o plano integrado de desenvolvimento que, em 1976, sob a gestão de Laudo Bernardes (2) foi desdobrado no (Plano de Preservação dos  Sítios Históricos - PPSH (3) coordenado por Geraldo Gomes. A publicação resultante permanece até hoje uma obra de referência e valeria um estudo, entre outras questões, pela vocação que, neste plano, foi atribuída à área do bairro da Capunga, ao redor da casa de nascimento de Manuel Bandeira, com um casario dos trabalhadores da fundição, ainda em funcionamento naquele momento. Hoje, toda a área tornou-se um feudo do Centro Universitário Maurício de Nassau, mais conhecido por sua sigla UNINASSAU, uma poderosa instituição de ensino privada.

   No Condepe, recebi a visita de Geraldo Santana, meu querido professor. Dizia-me me que a UFPE abrira concurso para professor de História de Arquitetura e instava para que eu me inscrevesse. O que fiz e, assim, soube imediatamente que Geraldo Gomes igualmente se inscrevera.

   Era, salvo engano de minha parte, o terceiro concurso que ele iria disputar. Havia sido aprovado nos anteriores, mas não obtinha a folha corrida da polícia, o documento que comprova que, até a data de sua emissão, o cidadão não possui condenações criminais transitadas em julgado cujo cumprimento ainda esteja em andamento.

   Mas o que fizera o arquiteto para a não obtenção de tal documento?

   Lembremos que estávamos em plena ditadura militar e que Geraldo Gomes, desde sua vida estudantil, tivera uma destacada militância de esquerda. Próximo particularmente do Partido Comunista, o partidão, havia inclusive participado do congresso da UIA União Internacional dos Arquitetos em Cuba, e, desde o golpe de 1964, se posicionara contra o regime. Geraldo havia sido preso e torturado, ficado durante um certo período no quartel da 7a. Região Militar na rua do Príncipe, 2a. CIA da Guarda. E, segundo consta, ali permaneceu até ser solto. 

   Não sei porque, por alguma associação, ou algum comentário do próprio Geraldo Gomes, dei de inventar que ele teria sido prisioneiro na antiga prisão que ficava em frente da antiga estação ferroviária. O fato é que não posso entrar na famigerada Casa da Cultura, o reuso atribuído à antiga prisão, sem que, ao ver a cela vazia, a única restante, como testemunha da função de cárcere do passado, lembre-me que Geraldo esteve ali, como prisioneiro.

   Fizemos o concurso em 1976. Estávamos ainda sob o governo do general Geisel, que anunciara em seu discurso de posse que a redemocratização seria um processo "lento, gradual e seguro". Dizem que o general teria enfrentado a linha-dura. Mas, a repressão continuava (4). Enfim, passamos ambos e Geraldo conseguiu a tal folha corrida. Assim, tornamo-nos professores da UFPE e colegas do departamento de Arquitetura e Urbanismo.

   Sabíamos que iríamos para uma instituição de ensino bem diferente daquela que havíamos cursado. Fomos diplomados, eu e Geraldo Gomes, pela Faculdade de Arquitetura do Recife -FAUR e tornamo-nos professores de um curso de arquitetura, recém submetido à famigerada reforma universitária que distribuíra os professores em diversos departamentos. Como forma de resistência, temendo que muitas disciplinas viessem a ser lecionadas por professores de outros departamentos, presumidamente com pouco conhecimento da arquitetura, um grupo dos antigos professores da FAUR, promoveu a mudança de nomes das disciplinas e de alguns conteúdos a fim de garantir a especificidade das matérias e, em consequência, a exigência de que elas fossem lecionadas por professores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e de preferência, arquitetos.

   Assim as Histórias da Arquitetura, para escaparem de aventureiros historiadores ou de outros professores de formação exógena ao nicho vitruviano, foram rebatizadas como Morfologias da Arquitetura, denominação aliás, muito na vanguarda dos estudos morfológicos atuais e que bem sinalizavam a especificidade do conteúdo (5) .

   No ano seguinte ao concurso (6), nos encontrávamos, eu e Geraldo Gomes num fórum bem mais engraçado e alegre: a fundação do Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho é Pouco. Consta no recente livro sobre a historia do bloco que há controvérsias sobre o inventor do nome do bloco e que a versão de que teria sido Geraldo Gomes é contestada. Eu, pessoalmente, acho típico do humor ferino, cortante que lhe era peculiar. O que diria ele diante da atual situação do país?

   Lembro Geraldo, carnavalesco, filho dedicado, acompanhando a mãe no bloco, fantasiado de vermelho e amarelo, as cores escolhidas pela designer Neide Câmara para o bloco às quais ele deu um conteúdo político a posteriori, certamente para brincar com quem lhe tenha feito a pergunta, disse:

   O vermelho vinha da Rússia e o amarelo da China. O bloco nasceu revolucionário.

   Em 1978, ao mesmo tempo em que militávamos no Instituto de Arquitetos do Brasil-PE, trabalhávamos na consolidação do sítio histórico de Olinda. Tínhamos alguns projetos de amigos que se instalavam na cidade alta, além daquele para nossa própria casa. Íamos ser moradores e vizinhos, havíamos comprado uma casa na mesma calçada da Rua São Bento, próximos da sede do Eu acho é Pouco, a casa de nossos amigos comuns, Sonia e Ivaldevan Calheiros. Coincidências mis, eu comprara minha casa, então uma pequena ruína, a um cliente de Geraldo que lhe pedira um projeto juntando duas casas, uma menor e que veio a ser minha e a vizinha, um imponente sobrado azulejado que tornou-se propriedade da família Carvalheira e depois dos Landolt. O cliente desistiu da ideia. Geraldo também desistiu da Rua São Bento e decidiu ir morar em Boa Viagem.

   Em 1978, enquanto eu, moradora da beira-mar olindense, aguardava a reforma da ruína, entramos, no mesmo grupo, em plena campanha para mudar a orientação política do IAB. Assim, fui eleita vice-presidente do instituto, do qual findei assumindo a direção máxima, após impedimentos de Dalvino Trocoli Franca. Na sucessão, concorremos eu e os Geraldos (Gomes e Santana), em chapas adversárias. A cisão deu margem a uma disputa acirrada. A eleição era aberta por cargo, não era por chapa fechada. A chapa capitaneada por Geraldo Gomes foi ganhadora em todos os cargos mas por uma margem mínima de votos. Candidata à vice-presidência perdi por um ou dois votos e houve empate na disputa da presidência entre Geraldo Gomes e Oscar Uchoa que, depois de mil recontagens, claro, obrigou a um segundo turno, que levou o primeiro à presidência.

   Mas o que nos dividia tanto a ponto de levar um combate tão aguerrido? Tenho cá minhas ideias mas é matéria para outro texto. Tão parecido com o que vemos no cenário atual! A história se repete como farsa, diria Geraldo, caçoando...O fato é que, depois das eleições, o IAB tornou-se ingovernável. Uma facção vigiando a outra e os estragos repercutiram nas amizades pessoais.

   Na UFPE, eu e Geraldo continuávamos bons colegas, dividindo os territórios: o da arquitetura brasileira para ele, o da arquitetura internacional para mim. Até que ele saiu para fazer pós-graduação e eu tive que cuidar do território dele. Como me senti ignorante! Claro, o plano de curso, a bibliografia, enfim todo o material didático de Geraldo estava disponível, mas eu não tinha nem o conhecimento teórico e prático, nem - principalmente -  a organização de meu colega. Enfim, o jeito foi enfrentar. Em 1984, quando parti para o doutorado foi ele que assumiu, sem a menor dificuldade, o território da arquitetura mundial.

   Idiossincrático, exigente, talvez frequentemente mais temido do que amado, Geraldo foi sempre respeitado. A transferência da professora Maria de Jesus de Britto Leite da UFES para a UFPE, no início dos anos noventa, proporcionou-me uma ocasião única de proximidade com Geraldo Gomes. Graças a Juju, como é conhecida a professora e atual coordenadora do Instituto do Futuro da UFPE, ex-aluna querida, Geraldo dispôs-se a acompanhá-la num almoço numa casa onde eu passava férias, em família, na praia do Janga, em Paulista. Lembro do evento como de algo mágico pela sua simplicidade e unicidade a um só tempo. Jogamos conversa fora, sem a menor pretensão, sem rivalidades, com um prazer, como se quiséssemos tirar o atraso. Preocupados estávamos apenas em espantar as moscas que atacavam nosso peixe.

   Estávamos de novo no mesmo campo, sem oposições mesquinhas, sem picuinhas, em tempos de pós-impeachment de Collor de Mello, rindo das bobagens de Itamar. Jamais podendo imaginar a sequência dos acontecimentos políticos do país. Foi um momento único, Geraldo. Foi pouco, muito pouco. Continuo achando pouco.

 

Notas

  1. AMORIM, Luiz; HOLANDA, Frederico de. Geraldo Gomes da Silva. A ida final do arquiteto, professor, pesquisador, gestor e fotógrafo. Drops, São Paulo, ano 21, n. 167.05, Vitruvius, ago. 2021 https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.167/8201

  2.  Passou em 1975 a integrar e equipe do governo de Pernambuco, quando foi responsável pela implantação da Entidade Metropolitana do Recife e da Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife (FIDEM), da qual foi superintendente.

  3. VIEIRA, Natalia Miranda. Gestão de sítios históricos: a transformação dos valores culturais e ..

  4. Há muita polêmica sobre a atuação de Geisel, em cujo governo ocorreram mortes como a de Herzog e desaparecimentos e execuções. Mas, independentemente dela, certas negociações locais já se faziam.

  5. Acredito que a nomenclatura tenha sido, sem dúvida, inspirada na tradição de história das artes  (L’Esprit des Formes) de Elie Faure.

  6.  O concurso ocorreu em 1976. O resultado e abertura de uma segunda vaga (a que ocupei) demorou a ser conhecido. No ínterim, creio que Geraldo Gomes tenha sido contratado como colaborador. Por esse fato e, no que me cabe, devido à minha militância em prol da contratação dos colaboradores, alguns, equivocadamente, pensam que ingressamos sem concurso. Há também uma confusão temporal segundo a qual antigos ex-alunos pensam que ingressei posteriormente a Geraldo, o que se deve, ao fato de que, saí licenciada pra concluir estágio em Toulouse, no segundo semestre de 1977 e fui generosamente substituída por ele. Os tempos eram realmente outros !